De locais de opressão a espaços de aprendizado, casas-grandes viram museus e até Parque da Abolição em Pernambuco
31/08/2025
(Foto: Reprodução) Casas-grandes viram museus e até Parque da Abolição em Pernambuco
A casa‑grande era o centro de poder e opressão durante o ciclo da cana-de-açúcar, principal atividade econômica de Pernambuco no Brasil imperial. Erguida em posição elevada em relação à senzala, ela simbolizava autoridade e controle dos senhores de engenho sobre a produção e, sobretudo, sobre as pessoas escravizadas — os separando física e socialmente.
Hoje, algumas dessas construções ganharam nova vida e significado, saindo de espaços de opressão a locais de aprendizado, tornando-se museus, alguns deles até batizados para celebrar a memória do abolicionismo e da população afro-brasileira.
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Três exemplos marcantes no Grande Recife são o Engenho Massangana, no Cabo de Santo Agostinho; o Museu da Abolição, na Madalena, Zona Oeste da capital; e a Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, em Apipucos, na Zona Norte (veja vídeo acima).
Segundo a pesquisadora Amanda Barlavento Gomes, doutora em história pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), esses três locais podem ser vistos como uma espécie de roteiro do abolicionismo no estado.
Ela lembrou que, embora os engenhos de cana-de-açúcar sejam creditados como força motriz da economia pernambucana nessa época, isso só ocorreu, de diversas formas, devido à presença e comércio de pessoas escravizadas.
"A historiografia vem questionando essa ideia do açúcar como principal economia do estado. Isso só foi possível pelo financiamento que se conseguia por meio prestamistas, que, geralmente, eram comerciantes atlânticos. E quase todos eram traficantes de pessoas escravizadas. Portanto, para se ter um engenho, era preciso ter muito dinheiro, e a forma mais fácil de conseguir era por meio dos prestamistas. O Barão de Beberibe, por exemplo, um dos maores traficantes do estado, foi um dos fundadores do Banco Comercial de Pernambuco, que se tornou o antigo Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe)", explicou.
Ainda segundo Amanda Barlavento Gomes, os engenhos, por vezes, eram famosos e respeitados mais por seus donos do que por sua capacidade de produção. E, ao entrar em declínio, acabaram por se tornar sítios, e suas casas-grandes, palacetes.
Conheça, abaixo, um pouco da história e do que se tornaram esses locais:
Museu da Abolição — Sobrado Grande da Madalena
Sobrado Grande da Madalena abriga o Museu da Abolição, na Zona Oeste do Recife
Instituto Biapó/Divulgação
⏳ História
Construído no século 17 pelo português Pedro Afonso Duro, foi casa-grande do Engenho da Madalena, um dos mais importantes engenhos de açúcar de Pernambuco. O proprietário casou-se com a brasileira Madalena Gonçalves, que hoje dá nome ao bairro, um dos mais nobres do Recife.
O prédio de estilo colonial, conhecido como Sobrado Grande da Madalena, é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), e é revestido de azulejos portugueses.
Ao longo do tempo, o local passou por diversas reformas, e no século 19 foi residência de Francisco do Rego Barros, o Conde da Boa Vista, que foi presidente das províncias de Pernambuco e do Rio Grande do Sul. Ele morou no sobrado até 1841, quando se mudou para um palacete na Rua da Aurora, hoje uma das sedes da Polícia Civil, no bairro da Boa Vista. O conde morreu nesse local, em 1870.
"Esse engenho ficava na passagem entre a zona rural e a zona comercial do Recife, que ficava nos arredores do porto, onde hoje fica o centro. O tempo que se levava entre essas regiões era longo, e muitas pessoas eram recebidas no Sobrado da Madalena, com acolhimento dos viajantes. Era produtor de açúcar, mas com o passar da urbanização, perdeu importância e virou um sítio", explicou a pesquisadora.
Outro notável morador do Sobrado da Madalena foi o conselheiro João Alfredo Correia de Oliveira, que dá nome à praça em que fica o edifício. João Alfredo foi um importante político, abolicionista e monarquista brasileiro, e um dos responsáveis pela formulação da Lei do Ventre Livre e da Lei Áurea, assinada pela Pricesa Isabel, que declarou extinta a escravidão no Brasil.
Ele esteve à frente do Conselho de Ministros do Brasil quando a campanha abolicionista conseguiu não somente a sanção da Lei Áurea, mas também impedir que o Estado brasileiro indenizasse os proprietários de pessoas escravizadas.
"João Alfredo foi um grande abolicionista e chegou a ser ministro do Imperio e chefe do Conselho de Ministros no lugar do Barão de Cotejipe. Grande político respeitado que foi, morou no sobrado, e o museu foi pensado originalmente para homenagear João Alfredo e Joaquim Nabuco", disse Amanda Barlavento Gomes.
🏛️ Transformação
A proposta de criação do Museu da Abolição surgiu durante o terceiro governo de Getúlio Vargas, como forma de homenagear os abolicionistas João Alfredo e Joaquim Nabuco. Entretanto, a instituição só foi criada em 1957, pelo presidente Juscelino Kubitscheck.
Em 1960, a Câmara Municipal do Recife desapropriou o sobrado para a instalação do museu, que passou a ser mantido pelo Iphan. Em 1964 ocorreu a emissão de posse do imóvel e, em 1966, o sobrado foi tombado como Patrimônio Nacional.
O museu tem como missão preservar, pesquisar, divulgar, valorizar e difundir a memória e patrimônio material e imaterial dos afro-descendentes. No local, há exposições interativas e virtuais, uma delas pode ser vista na internet, com objetos sacros afro-brasileiros apreendidos pela polícia em terreiros de candomblé do Recife, na década de 1920.
Parque Nacional da Abolição — Engenho Massangana
Casa-grande do Engenho Massangana e, ao fundo, Capela de São Mateus
Fundaj/Divulgação
⏳ História
Composto pela Casa-Grande e Capela de São Mateus o conjunto arquitetônico do Engenho Massangana fica numa área de dez hectares, no Cabo de Santo Agostinho, ao sul da Região Metropolitana do Recife. No local, o abolicionista pernambucano Joaquim Nabuco passou os primeiros anos de sua infância, e é citado por ele como base de seus ideais abolicionistas.
O engenho foi batizado em referência ao Rio Massangana, palavra que tem origem africana. Uma das versões para a origem do engenho é de que ele tenha sido fundado no século 16 pelo comendador Tristão de Mendonça, que recebeu as terras de Duarte Coelho, primeiro donatário da Capitania de Pernambuco.
De acordo com a Fundação Joaquim Nabuco, em meados do século 19, o engenho passou a ser propriedade do senador do império Joaquim Aurélio Pereira de Carvalho e sua esposa, Ana Rosa Falcão, madrinha de Joaquim Nabuco.
Nabuco nasceu em 1849 e logo se mudou para o Engenho Massangana, onde morou até os 8 anos, em 1957, ano da morte de sua madrinha. Ele cita o local em seu livro de memórias "Minha Formação", publicado em 1900. Ele dedica um capítulo ao engenho, que cita como sendo parte de sua "formação instintiva, ou moral, definitiva... Passei esse período inicial, tão remoto e tão presente, em um engenho de Pernambuco, minha província natal".
Segundo Amanda Barlavento Gomes, a história de Nabuco é cheia de nuances e contradições, já que ele, um político liberal e abolicionista, era filho de José Tomás Nabuco de Araújo Filho, que advogou para diversos comerciantes de prestígio em Pernambuco, incluindo traficantes de pessoas escravizadas.
Além disso, como juiz, ele julgou membros da Revolução Praieira, última rebelião provincial do Brasil no segundo reinado de Dom Pedro II. Na época, liberais, chamados de praieiros, lutaram e foram derrotados pelos conservadores na disputa pela província de Pernambuco. Vários foram condenados ao fuzilamento e ao exílio.
"Ele era um verdadeiro estadista, e vai ser muito importante porque se torna ministro, escritor do Código Civil e participa da lei que proíbe o tráfico de africanos escravizados no Brasil. Joaquim Nabuco, após a morte do pai, sendo o grande abolicionista que foi, precisou vender dois escravos para abrir o inventário dos bens herdados. Apesar de terem grande prestígio, essas pessoas não eram tão ricas quanto a gente pensa, mesmo com esses engenhos", explicou.
🏛️ Transformação
O Engenho Massangana era propriedade da Usina Santo Inácio, e por causa de dívidas, foi desapropriado em 1972 pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). O órgão federal o transferiu em comodato (empréstimo gratuito) para a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), situação que persiste até os dias atuais.
O museu foi inaugurado em 1973 e o conjunto foi tombado em 1984 pelo governo de Pernambuco como Parque Estadual da Abolição. No local, há espaços que remetem ao ciclo da cana-de-açúcar e a Joaquim Nabuco, com exposições, atividades educacionais, sala de leitura e visitas guiadas.
Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre
Fundação Gilberto Freyre fica no bairro de Apipucos, na Zona Norte do Recife
Pedro Alves/g1
⏳ História
Construída no século 19, a Vivenda Santo Antonio de Apipucos, hoje Casa-Museu Magdalena e Gilberto Freyre, foi casa do escritor pernambucano por mais de 40 anos. Antes, era uma das casas-grandes do Engenho de Apipucos, que de maneira incomum tinha mais de uma casa-grande, já que pertencia aos irmãos Antônio Lins Caldas e Thomáz José Lins Caldas.
Justamente por pertencer a dois irmãos, e por eles serem muito próximos, o Engenho de Apipucos era chamado por eles de Engenho dos Dois Irmãos, o que hoje dá nome tanto aos bairros de Apipucos quanto ao de Dois Irmãos.
"Esse engenho era muito vasto, imenso, e talvez por isso tivesse duas casas-grandes, além de pequenos sobrados e vilas para os trabalhadores livres. Alguns escravos dormiam na senzala, mas outros tinham pequenas casas e tinha umas terras que eram arrendadas para consumo interno, alimentação, mas uma parte daquela produção era para o senhor de engenho", afirmou Amanda Barlavento.
A casa-grande que virou residência de Gilberto Freyre era uma espécie de casa de festas. Não se sabe ao certo onde ficava a outra, mas é possível que ela ficasse perto do Açude de Apipucos ou do Rio Capibaribe.
Os herdeiros dos irmãos mantiveram o engenho por um tempo, mas o venderam em 1875 para a Companhia Beberibe, que construiu o primeiro sistema de abastecimento d'água do Recife, utilizando suprimento do Açude do Prata, em Dois Irmãos. Ela foi extinta em 1912, substituída pela Comissão de Saneamento do Recife.
🏛️ Transformação
Em 1881, a casa-grande foi reformada, e na década de 1940 foi comprada por Gilberto Freyre, autor de importantes obras como Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mucambos e Assombrassões do Recife Velho. O local tinha virado um sítio, assim como outros trechos ao seu redor, que tinham sido desmembrados.
Todos foram comprados pelo escritor, que unificou o terreno numa só propriedade e expandiu a casa, construindo uma pequena residência para seu pai, uma biblioteca, quartos para os filhos no primeiro andar e outros cômodos.
Em 1987, por ideia dele, foi criada a Fundação Gilberto Freyre, com a missão de preservar e disponibilizar ao público o patrimônio pessoal e intelectual do pernambucano. A entidade foi criada em março, e o escritor morreu em julho de 1987. Atualmente, ela ocupa um hectare de terra no bairro de Apipucos.
"O que eu acho mais interessante do Solar de Apipucos é o que acontece com ele, a ressignificação da estrutura física. Antes, era o símbolo senhorial e quem passa a morar é Glberto Freyre, que se contrapunha às ideias da época, que eram teorias segregacionistas, e fala sobre miscigenação. E nessa época, de 1930, era justamente o período em que se levantava o nazifascismo na Europa, com ideias eugenistas", declarou Amanda Barlavento Gomes.
A casa-grande virou casa-museu e mantém o ambiente da maneira que foi concebida pelo casal, com imagens sacras católicas, peças de origem africana, azulejos portugueses com peças da arte popular brasileira, porcelanas orientais com prataria inglesa e portuguesa.
"Há críticas à obra de Gilberto Freyre, porque ele fala sobre uma democracia racial que não aconteceu. Fala sobre a miscigenação do Brasil que foi construída na violência, só existiu violência. Ele romantiza o racismo e ignora a desigualdade social e racial, mas ele foi muito importante à sua época. Ele funda uma teoria e se contrapõe a tudo o que se fala na época", explicou.
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