Familiares relatam indignação após divulgação de relatório sobre acidente da Voepass: 'Bem difícil de digerir', diz filha de vítimas

  • 23/07/2026
(Foto: Reprodução)
Cenipa divulga resultado final da investigação sobre acidente com avião da Voepass em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) divulgou nesta quinta-feira (23) o relatório final sobre a queda do avião da Voepass em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas em agosto de 2024. Os familiares das vítimas tiveram acesso ao documento antes de ser divulgado durante coletiva de imprensa e relataram sentimento de indignação. Entre os participantes da reunião estava Eduarda Hübner, que perdeu na tragédia os pais Nélvio José Hübner e Gracinda Marina Castelo da Silva. Segundo ela, a sensação é de angústia e de revolta porque o "acidente aéreo poderia ter sido evitado". "Várias pessoas coniventes com a forma errada de lidar com tudo. Então, pra nós, assim, está sendo bem difícil de digerir isso, sabe? Meus pais eram pessoas muito corretas, cresci tendo esse exemplo dentro de casa, de fazer o certo, de lutar pelo certo, e ver que eles partiram dessa maneira", comentou. Eduarda afirmou que irá aguardar o relatório da Polícia Federal, no inquérito que apura responsabilidades criminais no acidente, para buscar justiça. "Coisa que nesse país é muito difícil de conseguir", completou. Nélvio e Gracinda eram casados há 25 anos Arquivo pessoal Por sua vez, Elizabeth Redivo, mãe da vítima Ana Caroline Redivo, também relatou sentimento de revolta e criticou a cultura da Voepass sobre a manutenção das aeronaves. "Aquela aeronave era sucateada, ela não poderia estar no ar, ela já deveria estar no ferro-velho e continuava. Foi jogando, foi jogando, por ganância, negligência, dinheiro, enfim, ene coisas. E falta de fiscalização também", criticou. Elizabeth ainda cobrou os órgãos fiscalizadores por uma atuação mais efetiva em relação à manutenção dos aviões. "Não adianta só ter lei, tem de ter fiscalização para essas leis", disse. Elizabeth cobrou fiscalização de aeronaves Reprodução/EPTV O relatório final reúne as conclusões da investigação técnica conduzida pela Força Aérea Brasileira (FAB) para identificar os fatores que contribuíram para o acidente. Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais grave de sua história e destacou que prestou apoio às famílias das vítimas desde o primeiro momento. A companhia também informou que segue colaborando de forma transparente com as investigações — clique aqui e veja a nota na íntegra. 'Início de um ciclo de luta' A mãe da médica e vítima Arianne Risso, Fátima Albuquerque, afirmou que a divulgação do relatório final significa o "fim de um ciclo", mas também o "início de um ciclo de luta". Na avaliação dela, o documento confirmou falhas da Voepass. "Mais revoltados, mais indignados, mas também mais firmes para lutar por justiça. Principalmente uma obrigação moral, cristã, de usarmos nossa dor para que novamente essa tragédia não aconteça", comentou. Fátima endossou a avaliação do Cenipa de "cultura de normalização de desvios" e pediu para que o trabalho da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) seja reforçado. "Aquela empresa vinha reiteradamente cometendo crimes, então tinha muitas multas. A gente precisa fortalecer a Anac no sentido de ter mais fiscalização, então precisa de mais dinheiro, precisa de mais profissionais, precisa de mais capacitação", completou. Fátima Albuquerque pediu para que o trabalho da Anac seja reforçado Reprodução/EPTV Em nota, a Anac disse que a Anac irá analisar as recomendações feitas pelo Cenipa. O prazo para avaliação é de até quatro meses. "As investigações conduzidas pelo Cenipa têm caráter exclusivamente preventivo e não se destinam à atribuição de culpa ou responsabilização, mas à identificação de fatores que contribuíram para o acidente e de recomendações para aprimorar o sistema de segurança operacional da aviação civil". destacou. Como foi o processo do relatório final Avião da Voepass teve panes em voos antes de acidente que matou 62 pessoas Ao longo da investigação, o órgão fez dezenas de perícias para reconstruir o voo e entender a sequência de eventos que levou à queda da aeronave. ➡️ Entre os principais trabalhos realizados estão: análise das duas caixas-pretas (gravador de voz da cabine e gravador de dados de voo); reconstrução completa do voo, incluindo comandos feitos pelos pilotos e alertas emitidos pela aeronave; exames nos motores e nos sistemas de degelo e de proteção contra estol; análise das condições meteorológicas registradas no dia do acidente; entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes; estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota da companhia; testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500; análise de registros de manutenção, certificados médicos dos pilotos e outros documentos técnicos. Segundo o Cenipa, também foram analisados equipamentos responsáveis pelo controle de diferentes sistemas da aeronave e até as lâmpadas dos painéis do avião para verificar quais estavam acesas no momento da queda. Escombros de avião em Vinhedo (SP) neste sábado, dia 10 de agosto de 2024 Nelson Almeida/AFP Revisão internacional Antes da divulgação, o relatório passou pelas etapas previstas no protocolo internacional para investigações de acidentes aeronáuticos. O documento foi analisado: pelo Bureau d'Enquêtes et d'Analyses pour la Sécurité de l'Aviation Civile (BEA), da França, país responsável pelo projeto e fabricação do ATR 72-500; e pelo Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores da aeronave. O relatório aponta culpados? Não. A investigação do Cenipa tem caráter preventivo e busca identificar os fatores que contribuíram para o acidente, além de emitir recomendações para aumentar a segurança da aviação. O relatório não define responsabilidades civis nem criminais. Caixa preta da aeronave que caiu em Vinhedo (SP). Divulgação/FAB Investigação criminal também está na reta final Paralelamente ao trabalho do Cenipa, a Polícia Federal conduz um inquérito para apurar se houve crimes e eventuais responsáveis pela tragédia. No fim de junho, representantes das famílias tiveram acesso pela primeira vez à transcrição das conversas registradas na cabine da aeronave. O documento integra o laudo produzido pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC), que embasa o inquérito da PF. As conversas eram aguardadas porque poderiam ajudar a esclarecer os momentos finais do voo, incluindo se os pilotos comentaram ou acionaram o sistema de degelo — uma das hipóteses investigadas desde o acidente. Segundo os advogados que representam os familiares, a expectativa é que a Polícia Federal conclua o inquérito em breve e encaminhe o caso ao Ministério Público Federal (MPF). O relatório poderá embasar eventuais indiciamentos. Ação judicial Após a conclusão do inquérito da PF, familiares das vítimas pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida não substitui as ações individuais de indenização já em andamento. A intenção é buscar a responsabilização de empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que tenham contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia. LEIA TAMBÉM: EXCLUSIVO: avião teve falha omitida em diário de bordo horas antes de decolar, diz testemunha Áudios inéditos mostram conversas entre pilotos e controle aéreo minutos antes da queda; OUÇA Bilhete de amor, terço e alianças: objetos saem intactos da tragédia e viram relíquias para famílias enfrentarem saudade Protesto de familiares das vítimas da queda de avião em Vinhedo Gabriella Ramos/g1 Relembre o acidente O acidente aconteceu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, fazia o voo entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma casa em um condomínio de Vinhedo (SP). As 62 pessoas a bordo, incluindo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Nenhum morador da residência atingida ficou ferido. Foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Infográfico - Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 O que diz a Voepass A queda do voo 2283, em 9 de agosto de 2024, foi o episódio mais difícil da história da VOEPASS. Desde o momento do acidente, a empresa esteve solidária às famílias das vítimas, compartilhando uma dor que permanece presente em sua memória. Em mais de 30 anos de operações na aviação brasileira, a companhia jamais havia enfrentado uma situação como essa. Ao longo de três décadas, sempre adotou procedimentos sérios de segurança, capacitação e orientação de tripulação. A atuação da empresa sempre esteve pautada em padrões de segurança internacionais, contando inclusive com a certificação IOSA desde 2012, um requisito de excelência operacional emitido apenas para empresas auditadas IATA. A tripulação do voo 2283 era experiente, capacitada e devidamente certificada, acumulando mais de 5.000 horas de voo e com treinamentos técnicos e acompanhamentos de saúde rigorosamente atualizados, sem qualquer registro prévio ou fator que impedisse sua atuação. Desde o início das apurações, a VOEPASS atua de forma transparente junto ao Cenipa e às autoridades públicas e segue à disposição de todas as instituições e agentes envolvidos para colaborar com o que for necessário. VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/07/23/familiares-relatam-indignacao-divulgacao-relatorio-acidente-voepass.ghtml


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